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FecharEduardo Kattah, ITAÚNA
O empresário mineiro José Mendes Nogueira, de 82 anos, já pode ser considerado o mais novo membro do seletíssimo clube de bilionários brasileiros. "Seu Zé Nogueira", como é conhecido na pacata Itaúna - cidade de 76 mil habitantes, a 82 quilômetros de Belo Horizonte -, se tornou quase que da noite para o dia um dos homens mais ricos do País e alcançou a condição para entrar para a lista dos homens mais ricos do mundo, feita pela revista Forbes.
A surpreendente ascensão de "Seu Zé Nogueira" é reflexo da enorme - e aparentemente inesgotável - demanda internacional pelo minério de ferro. Iniciada há seis anos, a corrida pelo minério atraiu as maiores mineradoras e siderúrgicas do mundo para o interior de Minas Gerais. Minas antes vistas como negócios modestos - e até desprezados - transformaram empresários relativamente pouco ambiciosos em milionários e, em alguns casos, bilionários.
Fundada há quatro décadas por "Seu Zé Nogueira", a J. Mendes foi vendida recentemente para a Usiminas por US$ 925 milhões - em dinheiro e à vista. Mas o preço final poderá chegar a US$ 1,9 bilhão caso se comprove o total das reservas, estimado em 1,4 bilhão de toneladas de minério. José Nogueira tem direito a 80%, sendo o restante distribuído entre os cinco filhos.
O valor da J.Mendes se multiplicou nos últimos anos em razão dos recordes alcançados no preço do minério, o que tornou viável a exploração de matéria-prima com menor concentração de ferro. As minas J. Mendes, Somisa e Global - que compõem o grupo J. Mendes -, localizadas na cidade de Itatiaiuçu, possuem teor de ferro médio inferior a 70%. Durante 40 anos, a exemplo de outras mineradoras independentes da região da Serra Azul, no oeste do quadrilátero ferrífero, a J. Mendes praticamente se limitava a fornecer minério para os produtores locais de ferro-gusa.
O assédio de grandes grupos, intensificado a partir de meados do ano passado, chegou até a assustar Nogueira, segundo pessoas próximas ao empresário. Além da Usiminas, Vale, Arcelor Mittal, BHP Billiton e Tata Steel fizeram propostas. Diante de uma resistência inicial do pai, os filhos fizeram ver que a família não teria como fazer os investimentos necessários para explorar o negócio. Além do mais, as cifras das propostas eram tão altas que não poderiam ser desprezadas.
Atualmente, a capacidade produtiva da J. Mendes é de 6 milhões de toneladas/ano e a intenção da Usiminas é promover investimentos para alcançar a marca de 29,2 milhões de toneladas anuais em 2013.
Desde o anúncio da venda da J. Mendes, José Nogueira deixou de seguir uma rotina de hábitos simples, que incluía o trajeto a pé de casa até a sede da empresa, no centro de Itaúna. A casa do empresário fica a cerca de dois quarteirões de distância do modesto edifício Benfica. Ele costumava ser visto nas imediações batendo papo com os amigos ou freqüentando algum estabelecimento comercial.
"Há muito tempo seu Zé Nogueira é o homem mais rico de Itaúna, mas nunca foi uma pessoa antipatizada. Sempre foi muito respeitado. Mas, nos últimos 60 dias, ele e os filhos deram uma sumida", observou uma pessoa próxima à família.
Por recomendação da polícia, o empresário e os filhos evitam aparecer em público. Em Itaúna, há a informação de que Nogueira estaria contrariado com o fato de precisar andar sob a vigilância de seguranças.
Quem bem conhece o empresário diz que ele não tem o menor interesse de se aposentar. Nogueira ainda é dono de outra mina - a J8, localizada na região central do Estado. A antiga estrutura da J. Mendes pertence agora à JMN, a nova denominação da empresa familiar. Além disso, o empresário administra vários imóveis em Itaúna e outros pequenos negócios. "O homem é um touro", define um ex-empregado.
PRINCESINHA
Inspirado pelo pai, que era dono de uma loja de ferragem, Nogueira começou a vida como comerciante. Antes de entrar no setor de minério de ferro, fundou "A Princesinha", uma tradicional loja de eletrodomésticos em Itaúna, que só foi fechada três anos atrás. Na década de 60, Nogueira comprou uma fazenda na cidade vizinha de Itatiaiuçu e apostou na prospecção de minério, solicitando o direito de lavra. Aos poucos, foi ampliando a produção e acabou adquirindo a parte de dois outros sócios, tornando-se o único dono das quatro minas (uma ainda está inativa).
Ao contrário de outros bilionários brasileiros, que controlam corporações gigantescas, Nogueira tem o perfil de pequeno empresário do interior. Antes da venda da mina, ele sempre fez questão de cobrar pessoalmente as dívidas, mesmo as mais miúdas. Em determinada época, decidiu dar destino comercial a um lote de sua propriedade - em frente do Tropical Tênis Clube de Itaúna. Permitiu que o então porteiro do clube explorasse o local como estacionamento. "O homem cobrava religiosamente os R$ 150 do aluguel", lembra o ex-porteiro.
Segundo pessoas ligadas à família, o empresário e os filhos, que sempre moraram em Itaúna, estariam constituindo casas em Miami. Mas o certo é que o octogenário empresário não parece disposto a abandonar Itaúna. No lote do antigo estacionamento, ele está construindo agora uma mansão assinada pelo renomado arquiteto de Belo Horizonte, Rômulo Hermeto. "Bilionário ou não, ele não vai se acostumar agora a viver uma vida de luxo longe daqui", avalia um antigo vizinho.
A reportagem do Estado procurou Nogueira, mas recebeu a informação de que ele não poderia dar entrevista.
Estadao.com.br
Fonte: O Estado de São Paulo
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Publicação: 25/03/2008