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Handbook | Aços & Ligas
 

Folhas de Flandres

A folha-de-flandres é um produto laminado plano constituído por aço de baixo teor de carbono, revestido em ambas as faces com estanho comercialmente puro por eletrodeposição. A folha-de-flandres combina a resistência mecânica e capacidade de conformação do aço com a resistência à corrosão, soldabilidade e boa aparência do estanho.

Este produto é composto por diferentes camadas. Sobre o aço-base está a camada de liga ferro/estanho. Em seguida, encontra-se o revestimento de estanho livre, recoberto por uma camada de passivação, que é formada por compostos de cromo. De uma maneira geral, as folhas recebem uma camada de óleo sobre a superfície, a fim de contribuir para o manuseio e também para proteger contra a corrosão atmosférica.
           
O acabamento superficial da folha-de-flandres é definido a partir da preparação controlada dos cilindros de trabalho usados no estágio final da laminação de encruamento do aço, pela massa de revestimento e pela fusão ou camada de estanho.
           
No Brasil, são produzidos três tipos de acabamento superficiais para folhas com baixo teor de carbono: brilhante, fosco e polido (risco de pedra). Segundo a ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), o acabamento fosco é obtido no aço-base pelo uso de cilindros de trabalho jateados no laminador de encruamento, não ocorrendo a fusão do estanho após sua deposição. O polido é feito por cilindros que possuem leves riscos de rebolo de retífica. O acabamento brilhante é obtido pela fusão da camada de estanho sobre o aço-base.

Camada de liga ferro-estanho

A camada de liga ferro-estanho (FeSn2) é obtida após o processo de eletrodeposição do estanho sobre o aço-base. A folha-de-flandres passa por tratamento térmico em uma torre de refusão do estanho, formando um processo de difusão e transferência de massa, que dá origem a uma camada intermetálica de ferro-estanho na forma de FeSn2.
           
A camada de liga pode ter estrutura cristalina retangular ou ser constituída de pequenos nódulos, dependendo das condições do tratamento aplicado. Algumas características da liga Fé/Sn2 estão relacionadas com as boas práticas de produção do aço-base. Estas devem favorecer a reação rápida entre os metais e a formação desta camada mais uniforme. Os principais fatores que podem influenciar estão ligados à limpeza da superfície, devendo ser evitados contaminantes antes e durante o recozimento, utilizando agentes de limpeza com boa capacidade de lavagem e uma limpeza eletrolítica eficientes, antes da deposição do estanho.

Camada de estanho

O estanho utilizado para revestir a folha-de-flandres deve ter pureza superior a 99,5%. A camada de estanho é expressa em gramas por metro quadrado (g/m²) para cada face da folha, quando fabricada pelo processo eletrolítico. Elas podem ser fabricadas com revestimento igual ou diferencial em relação às duas faces da folha.

Quadro 1: massa de revestimento para folhas-de-flandres eletrolíticas (revestimento igual, em g/m² - ABNT, 1995; ISO, 1995)

Nomenclatura usual

Faixa de massa de revestimento por face

Desvio de massa permitido para menos na média de ensaio triplo

E 1,1

1,0 < m < 1,5

-0,25

E 2,8

1,5 < m < 2,8

-0,30

2,8 < m < 4,1

-0,35

E 5,6

4,1 < m < 7,6

-0,50

E 8,4

7,6 < m < 10,1

-0,65

  E 11,2

10,1 < m

-0,90

M = Massa de estanho em g/m²

O quadro 2 apresenta a especificação para as folhas-de-flandres diferenciais, no qual a letra D significa diferencial e os números separados por barras os valores de estanho em gramas por metro quadrado.
           
As marcações nas folhas revestidas diferencialmente podem ser estabelecidas entre o fornecedor e o comprador do produto. Geralmente, a identificação do material com revestimento diferencial é feita pela marcação da face de maior revestimento e, em casos especiais, pode ser feita na face de menor revestimento. Esta marcação pode ser feita com linhas tracejadas, figuras geométricas e de outras formas, sendo que na maioria dos casos é feita com linhas paralelas. O quadro 1 apresenta os tipos de marcação mais utilizados em folhas-de-flandres diferenciais com os seus respectivos espaçamentos entre as linhas.
           
Quadro 2: massa de revestimento para folhas-de-flandres eletrolíticas (revestimento diferencial, em g/m² - ABNT, 1995)

CÓDIGO

MASSA NOMINAL

Desvio de massa permitido para menos na média de ensaio triplo

Face de maior revestimento

Face de menor revestimento

D 1,1/0

1,1

0

-0,25

D 2,8/0

2,8

0

-0,30

D 2,8/1,1

2,8

1,1

-0,30 / -0,25

D 5,6/2,8

5,6

2,8

-0,50 / -0,30

D 8,4/2,8

8,4

2,8

-0,65 / -0,30

D 8,4/5,6

8,4

5,6

-0,65 / -0,50

D 11,2/2,8

11,2

2,8

-0,90 / -0,30

D 11,2/5,6

11,2

5,6

-0,90 / -0,50

D 11,2/8,4

11,2

8,4

-0,90 / -0,65

Na maioria dos casos, a face de maior revestimento fica no interior da lata, por conferir maior proteção ao produto, porém o inverso também pode ser aplicado quando existe interesse, como no caso no qual o meio externo é agressivo ou da utilização de rótulos de papel e não de litografia.

Tratamento de passivação

O tratamento de passivação é um tratamento químico ou eletroquímico aplicado na superfície das folhas-de-flandres, tendo como finalidade proteger a camada de estanho contra a corrosão, inibir o crescimento de óxido de estanho, favorecer a aderência dos vernizes e tintas de litografia e prevenir a formação de manchas de sulfuração. Uma superfície oxidada pode produzir descoloração no caso de estocagem prolongada.

A aplicação do tratamento de passivação pode ser realizada na folha por deposição eletroquímica ou por imersão em solução de compostos de cromo, sendo realizado nas linhas de revestimento eletrolítico, após o processo de refusão e antes do oleamento. O tratamento mais utilizado é catódico, com o uso de solução de dicromato de sódio.

As folhas-de-flandres mais utilizadas recebem um tratamento denominado convencional, no qual ocorre a predominância de óxidos de cromo. As folhas destinadas ao acondicionamento de produtos alimentícios com alto teor de enxofre passam por tratamento resistente à formação de sulfetos, no qual ocorre a predominância de cromo metálico. As folhas-de-flandres também podem receber um tratamento por imersão em solução de compostos de cromo, denominado tratamento leve, que confere maior aderência de verniz à folha, porém com baixa resistência à reação de sulfuração.

O quadro 3 apresenta os valores mínimos e máximos de massas de revestimentos de compostos de cromo por face, para os diferentes tipos de tratamentos de passivação aplicados em folhas-de-flandres, especificado por meio do projeto de revisão da norma NBR 6665 – Folhas laminadas de aço de baixo carbono revestidas e não-revestidas – especificação (ABNT, 1995).

Quadro 3: médias mínima e máxima de massas de revestimento de compostos de cromo por face, em mg/m² (ABNT, 1995)

Tipos de tratamento

Média mínima de revestimento

Média máxima de revestimento

Convencional (SN-1)

3,0

10,0

Resistente a sulfetos
(SN-2)

8,0

20,0

Leve (SN-O)

1,0

5,0

A CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) produz no Brasil quatro tipos de passivação da folha-de-flandres, conforme identificado no Quadro 4.

Quadro 4: tipos de passivação de folha-de-flandres (CSN)

Identificação

Revestimento de cromo (mg/m²/face)

Observação

Passivação química 300

1,0 – 2,0

Uso com verniz da classe epóxi-fenólica

Passivação eletrolítica 310

2,5 – 4,0

Uso com verniz da classe epóxi-ureia

Passivação catódica 311

4,4 – 6,7

Uso geral

Passivação catódica 314

< 8,0

Uso para produtos sulfurosos (sem verniz)

Camada de óleo

As folhas-de-flandres são recobertas com uma fina camada de óleo, visando facilitar o manuseio durante a separação ou deslizamento das folhas em fardos ou bobinas e nas linhas de fabricação de lata, garantindo uma proteção adicional contra a abrasão e arranhões. A ausência de óleo pode causar também falta de interação da litografia. Uma quantidade acima do especificado pode causar problemas no seu envernizamento, tal como o efeito denominado olho de peixe.
           
O óleo a ser empregado na folha deve ser apropriado para o uso em embalagens destinadas a alimentos. Os materiais mais utilizados são o sebacato de dioctila (DOS) ou o acetil-tributil-citrato (ATBC). Outro óleo menos usado é o de semente de algodão.
           
O oleamento é a última etapa da fabricação da folha metálica, independentemente do tipo de revestimento a ser aplicado. Sua aplicação é feita eletrostaticamente em uma câmara na qual o óleo é atomizado, ao mesmo tempo em que é atraído para a superfície da tira pela ação do campo eletrostático obtido com a aplicação de corrente.
           
A massa do filme de óleo aplicada sobre a superfície metálica é muito pequena, em média, de um miligrama em 100 m² de área. De acordo com o projeto de revisão da NBR 6665 (ABNT, 1995), a massa média mínima aceitável é de 5 mg/m² e a média máxima é de 15 mg/m² para as duas faces da folha.

Curiosidade: Uma lata de óleo de 900 ml utiliza 90 g de folha-de-flandres. Aproximadamente 8 km de folha-de-flandres podem produzir 90 mil latas, ou seja, 620 mil km de folha de flandres são necessários para produzir uma lata de óleo para cada habitante da Terra.


Fonte: CETEA (Centro de Tecnologia de Embalagem)

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