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a) Microestrutura
dos bronzes
Os bronzes, ligas cobre-estanho, são as ligas metálicas utilizadas há mais
tempo pela humanidade, pois a chamada Idade do Bronze antecede a Idade do
Ferro. Entretanto, ao longo do tempo foram substituídas em muitas de suas
antigas aplicações por outras ligas metálicas de menor custo, e atualmente,
mesmo entre as ligas e cobre, são menos utilizadas do que os latões, por
exemplo. Mesmo assim, para determinados tipos de aplicações continuam sendo
os materiais mais adequados, o que garante sua permanência no grupo dos
materiais de engenharia mais utilizados na indústria.
Os átomos de estanho
são relativamente grandes em comparação com os átomos de cobre, mas apesar
disso possuem solubilidade relativamente elevada no cobre, e esses fatores
conjugados proporcionam considerável resistência mecânica e dureza às ligas
cobre-estanho, muito superior às dos latões com baixo teor de zinco. E mesmo
o latão com 30 % de zinco (C 260) possui resistência mecânica e dureza
inferiores às do bronze com 8 % de estanho (C 521). Por outro lado, ao
contrário da resistência mecânica, a dutilidade (alongamento em tração)
diminui com o aumento do teor de estanho, e embora o bronze com 8 % de
estanho seja bastante dútil, não apresenta trabalhabilidade comparável à do
latão com 30 % de zinco.
A solubilidade do
estanho no cobre cai acentuadamente com o decréscimo da temperatura, mas
abaixo de cerca de 300 ºC a taxa de precipitação da fase épsilon é lenta, de
modo que ligas que contêm até 10 % de estanho serão monofásicas (fase alfa)
após homogeneização adequada e resfriamento até 25 ºC. Termodinamicamente
estas ligas poderiam ser endurecíveis por precipitação, já que a fase delta
possui elevada dureza, porém a cinética de precipitação é muito lenta, o que
faz com que o tempo necessário para atingir um valor de dureza seja
excessivamente longo, inviabilizando a aplicação industrial deste tratamento
térmico para estas ligas. Por exemplo, o envelhecimento do bronze com 10 %
de estanho a 315 ºC por 5 h não produz aumento significativo de dureza e
resistência à tração.
O amplo intervalo
entre as temperaturas liquidus e solidus fazem essas ligas susceptíveis à
segregação durante a solidificação, mesmo as ligas com teores de estanho tão
baixos como 8 %, que contêm fase delta como conseqüência da capacidade da
região imediatamente externa às dendritas de fase alfa (matriz) conterem até
cerca de 13,5 %. A fase alfa reage com a fase líquida para formar uma certa
quantidade de fase beta através de uma reação peritética. A fase beta assim
formada decompõe-se por uma reação eutetóide em fase alfa e fase gama. Por
sua vez a fase gama decompõe-se em fase alfa e fase delta. Esta seqüência
pode ser bastante complexa e depende da taxa de resfriamento.
Os bronzes com 10 % ou
mais de estanho são usados em aplicações para mancais, que exigem elevada
resistência mecânica para poder suportar pesadas cargas e o desgaste
mecânico, o que só é possível devido ao significativo efeito de
endurecimento por solução sólida (resistência mecânica) e à presença da fase
delta, muito dura (resistência ao desgaste). Freqüentemente estas ligas são
usadas na condição fundida, sem tratamento térmico subseqüente, para a
fabricação de mancais, de modo que as propriedades iniciais dependem do
desenvolvimento da fase delta durante o processo de solidificação. Se a liga
for utilizada na condição fundida, as propriedades obtidas resultam
unicamente das condições do processo de fundição. O fator principal é o
tamanho do grão de fase alfa primária e a distribuição da fase delta na
microestrutura da liga. Este tamanho de grão da fase alfa primária pode ser
reduzido através do aumento da taxa de nucleação na fase líquida, tanto por
inoculação como pelo controle adequado da taxa de resfriamento. Quanto mais
rápido o resfriamento, mais finas serão as dendritas de fase delta [2].
b) Propriedades dos
bronzes
Os bronzes mais utilizados na indústria possuem teores de estanho variando
entre 2 e 10 % para as ligas trabalhadas e entre 5 e 11 % para as ligas
fundidas. À medida que o teor de estanho aumenta, também aumenta a
resistência mecânica da liga até 15 % de estanho, porém a dutilidade diminui
sensivelmente, principalmente a partir de 5 % de estanho. Entretanto, as
propriedades mecânicas podem ser melhoradas com a adição de até 0,4 % de
fósforo, o qual também atua como desoxidante, originando o chamado bronze
fosforoso.
A microestrutura do
bronze que contém até entre 8 e 16 % de estanho (dependendo das condições de
resfriamento), é monofásica (fase alfa) e assim constituída por uma solução
sólida de estanho em cobre. Acima desses teores inicia-se a precipitação de
uma fase intermetálica, denominada delta, a qual é rica em estanho e possui
dureza elevada. A associação desta fase delta com uma matriz alfa dútil
resulta em um material com excelentes propriedades antifricção, o qual é
muito usado para a fabricação de mancais.
Outra propriedade
importante dos bronzes é a sua elevada resistência á corrosão, o que faz com
que muitas de suas aplicações baseiem-se nesta propriedade. Em teores
limitados o chumbo pode ser adicionado para melhorar as propriedades
antifricção, a usinabilidade e a estanqueidade no caso de peças fundidas,
enquanto a adição do zinco é importante para desoxidação (também no caso de
peças fundidas) e para melhorar a resistência mecânica.
No próximo segmento
será feita uma análise individual das propriedades e aplicações dos bronzes
mais utilizados industrialmente [1].
c) Aplicações dos
bronzes
Bronzes trabalhados
(dúteis)
Bronze C 505 (98 % de
cobre e 2 % de estanho) – É uma liga monofásica (alfa) que contém pequenos
teores de fósforo, sendo a primeira liga da série dos bronzes na
classificação CDA-ASTM. Esta liga possui uma condutividade elétrica
relativamente alta (cerca de 40 % IACS), principalmente quando os teores de
estanho e fósforo estão próximos aos limites inferiores da especificação.
Possui resistência mecânica ligeiramente superior à do cobre, porém mantém
uma boa trabalhabilidade a frio. Apresenta boa resistência à corrosão em
geral e particularmente à corrosão sob tensão. Esta liga é muito utilizada
em aplicações elétricas, como contatos de aparelhos de telecomunicações,
molas condutoras, e na construção mecânica em tubos flexíveis, parafusos
encabeçados por recalque a frio, rebites e varetas de soldagem.
Bronze C 511 (96 % de
cobre e 4 % de estanho) – Mantém a estrutura monofásica alfa e também contém
pequenos teores de fósforo, apresentando uma boa combinação de
trabalhabilidade a frio e resistência mecânica e dureza. Apresenta boa
resistência á corrosão, inclusive corrosão sob tensão. É utilizado em
aplicações arquitetônicas como ganchos de chapas de revestimento, em
aplicações elétricas como molas, componentes de interruptores, chaves,
contatos e tomadas, e na construção mecânica como molas, diafragmas,
parafusos encabeçados por recalque a frio, rebites, porcas e escovas
metálicas.
Bronze C 510 (95 % de
cobre e 5 % de estanho) – Possui microestrutura e propriedades bem
semelhantes às das duas ligas anteriores, apresentando, porém, uma
resistência mecânica ligeiramente superior à do bronze C 511. É produzido
sob a forma de barras, chapas e fios, sendo usada na fabricação de ganchos
de chapas de revestimento, tubos para condução de águas ácidas, componentes
para a indústria têxtil, química e de papel, molas condutoras e componentes
de interruptores e tomadas, molas e diafragmas, parafusos, rebites, porcas,
escovas, tubos de manômetros, varetas e eletrodos de soldagem.
Bronze C 519 (94 % de
estanho e 6 % de bronze) – Esta liga ainda possui microestrutura monofásica
e pequenos teores de fósforo, mas possui maior resistência à fadiga e ao
desgaste do que os bronzes mencionados anteriormente. Possui propriedades
mecânicas, trabalhabilidade e resistência à corrosão muito elevadas. É
produzida sob a forma de chapas, barras, fios e tubos. Na indústria química
é utilizada é usada na fabricação de tubos de condução de águas ácidas,
componentes para as indústrias química, têxtil e de papel, na construção
elétrica para molas condutoras e componentes de interruptores, e na
construção mecânica em molas e membranas, escovas, tubos de manômetros,
engrenagens, componentes de bombas e eletrodos de soldagem.
Bronze C 521 (92 % de
cobre e 8 % de estanho) – É uma liga monofásica (fase alfa), que contém,
dependendo das condições de fabricação, pequenas quantidades de fase delta.
Como possui elevados teores de estanho e de fósforo, apresenta elevadas
resistência á fadiga e ao desgaste e propriedades antifricção, além de boa
resistência á corrosão. Este bronze é produzido sob a forma de chapas,
barras, fios e tubos. Na indústria química é destinado ao mesmo tipo de
aplicação que o bronze C519, do mesmo modo que nas aplicações elétricas e na
construção mecânica, mas no caso de molas, é uma liga mais adequada para
condições de solicitações mais severas, além de ser muito apropriada para a
fabricação de discos de fricção.
Bronze C 524 (90 % de
cobre e 10 % de estanho) – É uma liga bifásica (contém as fases alfa e
delta), que possui elevada resistência á fadiga e ao desgaste, o que
recomenda seu uso como material antifricção. Entre os bronzes trabalhados é
o que apresenta maior resistência mecânica e dureza, sendo produzido sob a
forma de chapas e fios. Suas principais aplicações estão na construção de
instalações da indústria de papel e na fabricação de molas para serviços
pesados.
Bronzes fundidos
Cu 89 – Sn 11 – Usado
para a fabricação de engrenagens diversas.
Cu 88 – Sn 10 – Zn 2 –
Utilizado em conexões de tubos grandes, engrenagens, parafusos, válvulas e
flanges.
Cu 88 – Sn 6 – Zn 4,5
– Pb 1,5 – Usado em válvulas para temperaturas de até 290 ºC, bombas de óleo
e engrenagens.
Cu 87 – Sn 11 – Pb 1 –
Ni 1 – Usado em buchas e engrenagens diversas.
Cu 85 – Sn 5 – Pb 9 –
Zn 1 – É uma liga usada em mancais e buchas pequenas.
Cu 80 – Sn 10 – Pb 10
– Bronze usado na fabricação de mancais para altas velocidades e grandes
pressões e mancais para laminadores.
Cu 78 – Sn 7 – Pb 15 –
Bronze aplicado na fabricação de mancais para pressões médias e mancais para
automóveis.
Cu 70 – Sn 5 – Pb 25 –
Usado em mancais para altas velocidades e pequenas pressões.
Cu 85 – Sn 5 Pb 5 – Zn
5 – É uma liga especial que apresenta alta fundibilidade, sendo utilizada na
fabricação de peças de resistência média, mas com boa estanqueidade e
usinabilidade. É usada em geral na fabricação de válvulas para pequenas
pressões e engrenagens de pequeno tamanho, entre outras aplicações [1].
d) Propriedades dos
bronzes
A seguir é apresentado um resumo de faixas de valores típicos das principais
propriedades de alguns bronzes mais utilizados na indústria [1].
Tabela
3.1 – Propriedades mecânicas dos bronzes trabalhados
|
Liga (ASTM) |
Composição |
Limite de resistência à tração
(MPa)
|
Limite de escoamento
(MPa)
|
Alongamento (%) |
Dureza Brinell (HB) |
Limite de resistência à fadiga (MPa) |
|
505 |
Cu98 Sn2 |
280-650 |
110-500 |
45-2 |
60-150 |
115-225 |
|
511 |
Cu96 Sn4 |
330-900 |
130-580 |
50-2 |
70-195 |
210-540 |
|
510 |
Cu95 Sn5 |
350-950 |
130-620 |
55-2 |
75-205 |
85-265 |
|
519 |
Cu94 Sn6 |
370-1000 |
150-760 |
60-2 |
80-225 |
195-210 |
|
521 |
Cu92 Sn8 |
420-1050 |
170-820 |
65-2 |
85-240 |
120-230 |
|
524 |
Cu90 Sn10 |
440-1000 |
190-850 |
65-3 |
95-245 |
120-225 |
Tabela
3.2 – Propriedades mecânicas dos bronzes fundidos
|
Liga (Composição) |
Limite de resistência à tração(MPa) |
Alongamento (%) |
Dureza Brinell (HB) |
|
Cu 89
Sn 11 |
200 |
8
|
80 |
|
Cu 88
Sn 10 Zn 2 |
220 |
16 |
76 |
|
Cu 88
Sn 6 Zn 4,5 Pb 1,5 |
240 |
17 |
68 |
|
Cu 87 Sn 8 Zn 4
Pb 1 |
210 |
14 |
70 |
|
Cu 87 Sn 11 Pb 1
Ni 1 |
200 |
8 |
78 |
|
Cu 85 Sn 5 Pb 9
Zn 1 |
170 |
25 |
63 |
|
Cu 80
Sn 10 Pb 10 |
180 |
28 |
69 |
|
Cu 78
Sn 7 Pb 15 |
170 |
24 |
57 |
|
Cu 70
Sn 5 Pb 25 |
100 |
15 |
50 |
|
Cu 85 Sn 5 Pb 9
Zn 1 |
200 |
16 |
62 |
|