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Nas ligas da série 6XXX o magnésio e o
silício combinam-se para formar o composto intermetálico Mg2Si, que
antes de atingir o equilíbrio no superenvelhecimento, é o responsável
pelo endurecimento dessas ligas. A solubilidade da fase Mg2Si (beta) na
matriz rica em alumínio (alfa) aumenta com a elevação da temperatura. O
tratamento de solubilização e envelhecimento artificial controlado
permite a precipitação da segunda fase (beta) a partir de uma solução sólida
supersaturada. Isso favorece a formação de precipitados finos e
uniformemente distribuídos, que acarretam um substancial aumento na
dureza do material [3,5,6].
O aumento da dureza com o tempo e a
temperatura de envelhecimento estão relacionados com o crescimento das
partículas de segunda fase, desde dimensões características de zonas de
Guinier-Preston [7] até partículas com menor grau de coerência [8,9]. A
queda de dureza, que ocorre para tratamentos térmicos em altas
temperaturas e/ou longos tempos de envelhecimento, está relacionada com o
crescimento excessivo dos precipitados, favorecendo o movimento das
discordâncias quando de uma solicitação mecânica, o que possibilita o
amolecimento da liga, e que caracteriza o superenvelhecimento [8].
Em temperaturas de envelhecimento da ordem
de 200ºC, a precipitação nestas ligas tem uma cinética relativamente rápida.
O processo inicia-se através da formação de aglomerados (clusters) de
átomos de silício, uma vez que a solubilidade do silício no alumínio
é menor do que a do magnésio. Esses aglomerados estão distribuídos
homogeneamente através da matriz. As lacunas retidas com o resfriamento rápido
favorecem o aumento da difusividade dos átomos de silício, acelerando o
processo [10-14].
Aos poucos, os átomos de magnésio
difundem-se para esses aglomerados de silício e ligando-se a estes formam
as chamadas zonas de Guinier-Preston (GP). A formação das zonas GP a 200ºC
é rápida. Estas possuem formato aproximadamente esférico e à medida
que crescem, transformam-se em precipitados com forma de agulhas,
conhecidos na literatura como beta" [5,7]. Ao contrário dos
precipitados intermediários, as zonas GP não têm estrutura cristalina
definida, caracterizando-se por desordem interna [15]. Essas zonas podem
atuar como núcleos para a formação de precipitados intermediários
[16-18]. Outros tipos de heterogeneidades, como discordâncias e contornos
de grão, podem favorecer a nucleação de precipitados [7, 9]. Enquanto
alguns pesquisadores [3,5,16,17] afirmam que o processo de precipitação
é contínuo, outros consideram-no descontínuo, ou seja, que a formação
de determinados tipos de precipitados ocorreria a partir da dissolução
dos precipitados anteriores.
Após algum tempo de envelhecimento a 200ºC
formam-se os precipitados beta" [3,16,17]. O precipitado de transição
desenvolve-se por um processo de ordenamento do espaçamento e do arranjo
atômico nos aglomerados de átomos de magnésio e silício [19].
Prolongando-se o envelhecimento a 200ºC
surgem os precipitados beta', que originam-se do crescimento e transformação
dos precipitados beta". Esses dois precipitados são bem distintos:
enquanto beta" é totalmente coerente, beta' é semi-coerente, além das
diferenças quanto ao tamanho (os precipitados beta" são bem menores
que os beta') e forma (beta" em forma de agulhas e beta' em forma de
bastonetes) [20]. Os valores máximos de dureza obtidos nestas ligas
Al-Mg-Si estão associados à presença dos precipitados metaestáveis
beta" e beta' [3].
Para tempos de envelhecimento a 200ºC
muito longos surge o precipitado de equilíbrio b, completamente
incoerente com a matriz. Este precipitado, cuja composição química
corresponde à relação estequiométrica Mg2Si, possui forma de plaqueta
e dimensões relativamente grandes. Sua presença está associada ao
amolecimento da liga acarretado pelo superenvelhecimento. A seqüência de
precipitação nas ligas Al-Mg-Si seria portanto a seguinte [3,5]:
Solução sólida --> zonas GP (esféricas)
--> beta" (agulhas) --> beta' (bastonetes) --> b (plaquetas
quadradas) : Mg2Si.
A introdução de elevados teores de cobre
(da ordem de 0,7 a 1,0 %) nas ligas da série 6XXX enriquece estas ligas
com outros tipos de precipitados endurecedores além de beta" (em forma
de agulhas) e beta' (em forma de bastonetes). Foram identificados também,
nestas ligas que contêm cobre, precipitados em forma de ripas, ainda não
identificados, mas que podem ser precipitados intermediários da fase
Q'(composição aproximada: Al4Cu2Mg8Si7), da fase theta" (Al2Cu) ou da
fase S' (Al2CuMg). É possível que todas essas fases estejam presentes
nas ligas Al-Mg-Si-Cu [21-24].
Chakrabarti e outros [25] afirmam que, ao
contrário das fases beta", Q' e theta", é improvável, do ponto de
vista da termodinâmica, a presença das fases S' ou S (resultante da
transformação da fase S' mencionada em precipitados termodinamicamente
estáveis) nas ligas Al-Mg-Si-Cu e que estas fases não poderiam coexistir
com as fases Q' e Q (analogamente proveniente da transformação da fase
Q' em precipitados de equilíbrio) , presentes nas ligas com teor de silício
razoavelmente alto. A fase Q' teria a mesma morfologia (forma de ripas
alongadas) e estrutura cristalina da fase Q (hexagonal compacto: a = 1,04
nm e c = 0,405 nm) diferenciando-se desta somente pelas menores dimensões
e pelo fato de ser coerente. Para tempos de envelhecimento mais
prolongados, a tendência é o aumento da presença da fase Q' quando
comparada com a fase beta", que predomina no início do envelhecimento
[25-28]. Ao contrário da fase beta", que apresenta seção reta
circular, a fase Q' possui seção reta retangular. O grande efeito de
endurecimento por precipitação associado à presença desta fase
explicaria o ganho de dureza e de resistência mecânica associado às adições
de cobre às ligas Al-Mg-Si. A fase Q' (e a Q) também pode ser encontrada
em ligas Al-Cu-Mg (série 2XXX) com adições de silício. Considerando-se
as regiões de estabilidade das diferentes fases endurecedoras em função
dos teores de magnésio, silício e cobre, verifica-se que a composição
da liga 6013, que possui um pequeno excesso de silício, corresponde à
presença das fases beta", theta", Q' e Si (aglomerados de átomos de
silício) [25].
Além do cobre, outro elemento importante
nestas ligas é o manganês, embora em teores mais baixos, da ordem de 0,3
a 0,6 %. Este elemento combina-se com o ferro e o silício para formar as
fases AlFeMnSi e Al15Mn3Si2 [21,22]. Quando o teor de ferro é muito alto,
quando comparado com o teor de manganês, predomina a fase AlFeSi, que é
tanto mais grosseira, quanto maior o teor de ferro. Nesse caso, esta fase
é conhecida como b-AlFeSi [29-34]. Quando o teor de ferro é mais baixo e
o teor de manganês relativamente baixo, ainda predomina a fase AlFeSi,
embora esta se apresente sob a forma de partículas bem mais finas,
denominando-se então fase alfa-AlFeSi. Quando o teor de manganês é
semelhante ao teor de ferro, prepondera a fase AlFeMnSi, uma vez que boa
parte dos átomos de ferro são substitídos por átomos de manganês
[34].Quando o teor de ferro é bem mais baixo que o teor de manganês,
prepondera a fase AlMnSi, que se apresenta sob a forma de dispersóides
finos, quando o teor de manganês é alto. O tamanho e a distribuição
dessas fases influi bastante sobre o comportamento da liga 6013 no que se
refere à recristalização. As partículas finas (dispersóides com maior
teor de manganês) atuam como obstáculos ao movimento dos contornos de grão,
retardando a recristalização e o crescimento de grão [21,35]. Por outro
lado, as partículas grosseiras (mais ricas em ferro) favorecem a
recristalização, na medida em que com a deformação, a região
adjacente a estas partículas grosseiras apresentam maior grau de deformação
(maior densidade de discordâncias) e por isso atuam como sítios mais
eficazes para a nucleação preferencial de grãos recristalizados
[21,35]. Além disso, o livre caminho médio para a migração de
contornos é maior entre estas partículas mais grosseiras, que portanto não
retardam de modo significativo a recristalização. Deste modo, o material
que contém partículas grosseiras tem a recristalização acelerada em
comparação com o que contém partículas finas [21,22,35].
Sendo assim, ao passo que o cobre influi no
endurecimento por precipitação da liga, o manganês afeta a cinética de
recristalização da mesma.
- Processamento e aplicações das
ligas da série 6xxx
As ligas da série 6xxx apresentam duas
características que justificam o seu uso mais freqüente quando
comparadas às demais ligas de alumínio: a capacidade de endurecimento
por precipitação (são termicamente tratáveis) aliada à facilidade de
serem extrudadas. Estas ligas apresentam elevada dutilidade, que permite o
seu uso em operações que acarretam elevados graus de deformação, como
a extrusão. Por esse motivo, as ligas Al-Mg-Si representam a maior parte
do volume de ligas de alumínio extrudadas [36-41].
Além da maior facilidade de serem
trabalhadas, quando comparadas com as demais ligas termicamente tratáveis
(Al-Zn-Mg e Al-Cu) [36,37], as ligas Al-Mg-Si apresentam maior
soldabilidade [42] e maior resistência à corrosão [3] do que as demais
ligas termicamente tratáveis (Al-Zn-Mg e Al-Cu). Assim, as ligas da série
6xxx são as mais utilizadas comercialmente.
Com o objetivo de superar as limitações
das ligas Al-Mg-Si para aplicações em que se exige níveis de resistência
mecânica mais elevados, recentemente foram introduzidas as ligas
Al-Mg-Si-Cu: 6013, 6056 e 6111 [21,22,24,43-45]. A adição de elevados
teores de cobre permite obter resistência mecânica bem mais alta do que
a das tradicionais ligas Al-Mg-Si sem cobre, atingindo valores comparáveis
às das ligas da série 2xxx, sem contudo prejudicar sensivelmente as
características que favorecem a sua utilização em processos como extrusão
e soldagem [21,22,24].
As ligas de alumínio da série 6xxx são
utilizados em uma ampla variedade de aplicações, desde o uso em perfis
de arquitetura, como é o caso das ligas mais diluídas e conseqüentemente
de menor resistência mecânica, como a 6063 e a 6060, até as chamadas
ligas de aplicação estrutural com maiores teores de elementos de liga e
maior dureza, como a 6061 e a 6351, com grande potencial de aplicação na
indústria automobilística [36-40] Para aplicações na indústria aeronáutica
normalmente utilizam-se as ligas das séries 2xxx e 7xxx. As novas ligas
Al-Mg-Si-Cu podem não só substituir as tradicionais ligas Al-Mg-Si de
aplicação estrutural (como a 6061) como também podem ser usadas em várias
aplicações na indústria aeronáutica ainda reservadas às ligas Al-Cu e
Al-Zn-Mg [46-48].
Entretanto, como a introdução destas
ligas Al-Mg-Si-Cu no mercado é ainda muito recente, é muito importante
uma investigação quanto à microestrutura e propriedades para uma avaliação
precisa de seu potencial, uma vez que não há muitos dados disponíveis
sobre este novo subgrupo de ligas na literatura. Entretanto, a partir dos
primeiros estudos, com ênfase na análise de propriedades mecânicas como
dureza e resistência à tração, já se pode dizer que essas novas ligas
poderão ser aplicadas em diversos componentes do automóvel, como o
chassi, carroceria, barra de direção, rodas, painéis internos e
externos entre vários outros [2,49].
Além das ligas trabalhadas da série 6xxx,
no grupo das ligas que contêm Si, Mg e Cu como seus principais elementos
de liga, devem ser mencionadas as ligas fundidas da série 3xx.x, entre as
quais as ligas 380.0, 356.0, 390.0,360.0, 359.0, 357.0, 355.0, 332.0,
319.0, 324.0, 384.0, 364.0, 392.0 e 336.0 [1,3].
As tabelas 6.1 e 6.2 mostram,
respectivamente, a composição química e as propriedades mecânicas de
algumas ligas trabalhadas da série 6xxx [3].
Tabela 6.1 - Composição química
de ligas Al-Mg-Si
| Liga |
Mg |
Si |
Cu |
Mn |
Cr |
| 6101 |
0,6 |
0,5 |
- |
- |
- |
| 6201 |
0,8 |
0,7 |
- |
- |
- |
| 6009 |
0,6 |
0,8 |
0,37 |
0,5 |
- |
| 6010 |
0,8 |
1,0 |
0,37 |
0,5 |
- |
| 6013 |
1,0 |
0,8 |
0,9 |
0,6 |
- |
| 6022 |
0,58 |
1,28 |
0,07 |
0,08 |
- |
| 6151 |
0,6 |
0,9 |
- |
- |
0,25 |
| 6351 |
0,6 |
1,0 |
- |
0,6 |
- |
| 6951 |
0,6 |
0,35 |
0,28 |
- |
- |
| 6053 |
1,2 |
0,7 |
- |
- |
0,25 |
| 6061 |
1,0 |
0,6 |
0,2 |
0,28 |
0,2 |
| 6262 |
1,0 |
0,6 |
0,28 |
- |
0,09 |
| 6063 |
0,7 |
0,4 |
- |
- |
- |
| 6066 |
1,1 |
1,3 |
1,0 |
0,8 |
- |
| 6070 |
0,8 |
1,3 |
0,28 |
0,7 |
- |
Obs. : Alumínio é o restante (em todas as ligas). A liga 6262 contém também 0,6 % Bi e 0,6 % Pb.
Tabela 6.2 - Propriedades mecânicas de ligas
Al-Mg-Si
| Liga |
Têmpera |
Limite
de resistência à tração (MPa) |
Limite
de resistência ao escoamento (MPa) |
Alongamento
em 50 mm (%) |
Dureza
Brinell |
Limite
de resistência à fadiga (MPa) |
| 6101 |
T6 |
220 |
195 |
15 |
71 |
- |
| 6201 |
T81 |
330 |
- |
6 |
- |
105 |
| 6009 |
T4 |
230 |
125 |
25 |
62 |
- |
| 6010 |
T4 |
290 |
170 |
24 |
78 |
- |
| 6013 |
T651 |
406 |
372 |
9 |
132 |
- |
| 6151 |
T6 |
330 |
295 |
17 |
100 |
85 |
| 6351 |
T6,
T651 |
340 |
295 |
13 |
95 |
90 |
| 6951 |
T6 |
270 |
230 |
13 |
82 |
- |
| 6053 |
T6 |
255 |
220 |
13 |
80 |
90 |
| 6063 |
T6 |
240 |
215 |
12 |
73 |
70 |
| 6463 |
T6 |
240 |
215 |
12 |
74 |
70 |
| 6061 |
T6 |
310 |
275 |
12 |
95 |
95 |
| 6262 |
T9 |
400 |
380 |
10 |
120 |
90 |
| 6066 |
T6,
T651 |
395 |
360 |
12 |
120 |
110 |
| 6070 |
T6 |
380 |
350 |
10 |
120 |
95 |
|